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Aprender · Res. CFP 06/2019

Relatório psicológico: como escrever os 5 itens, passo a passo

Atualizado em · 8 min de leitura

O relatório psicológico comunica um trabalho: um acompanhamento em curso, um encaminhamento, uma visita domiciliar. A Resolução CFP 06/2019 define cinco itens e o que cada um precisa conter. Este guia percorre o art. 11 item por item e termina com um modelo fictício.

O que é um relatório psicológico?

O relatório psicológico é uma exposição escrita, descritiva e circunstanciada que comunica a atuação da psicóloga ou do psicólogo num processo de trabalho já concluído ou em andamento. Considera os condicionantes históricos e sociais da pessoa, grupo ou instituição atendida, pode gerar orientações e encaminhamentos e não tem como finalidade produzir diagnóstico psicológico (art. 11, caput).

É uma peça técnico-científica, com linguagem acessível ao destinatário (art. 11, I). Você o constrói a partir do registro documental (art. 11, II), mas, como lembra a versão comentada do CFP, ele não é a transcrição desse registro.

A comentada lista usos comuns: visita domiciliar, encaminhamento, estudo de caso, atendimento único de orientação e pedido de ampliação de sessões ao plano de saúde. E separa o relatório de documentos administrativos, como relatórios de atividades e ofícios. Se o pedido exige diagnóstico, veja laudo x relatório psicológico.

Quais são os 5 itens do relatório psicológico?

O relatório psicológico tem cinco itens: identificação, descrição da demanda, procedimento, análise e conclusão (art. 11, §1º, I). Eles podem aparecer com subtítulos ou em texto corrido, mas o conteúdo de cada um não pode faltar. Diferente do laudo e do parecer, o relatório não tem item próprio de referências; se você citar material teórico, referencie, de preferência em nota de rodapé (art. 5º, §7º).

Item O que entra Base
Identificação Título "Relatório Psicológico", pessoa ou instituição atendida, solicitante, finalidade, autora(or) com inscrição no CRP art. 11, §2º
Descrição da demanda O que motivou a busca pelo serviço, quem deu as informações, o que levou ao pedido do documento art. 11, §3º
Procedimento Raciocínio técnico-científico, recursos usados, referencial teórico-metodológico, pessoas ouvidas, número de encontros, duração art. 11, §4º
Análise Exposição descritiva, narrativa e analítica do trabalho, com fundamentação teórica e técnica art. 11, §5º
Conclusão Conclusões tiradas da análise; pode trazer encaminhamento, orientação e sugestão de continuidade art. 11, §6º

Como preencher a identificação?

Coloque o título "Relatório Psicológico" e o nome completo ou nome social da pessoa ou instituição atendida (art. 11, §2º, I e II). Diga quem pediu o documento, especificando se foi o Judiciário, uma empresa, uma instituição, a própria pessoa ou outro interessado (inciso III). Registre a finalidade (inciso IV) e o seu nome com a inscrição no CRP (inciso V).

Capriche na finalidade: segundo a comentada, é nela que você aponta o contexto que originou o documento. "Subsidiar pedido de ampliação de sessões junto ao plano de saúde" limita o uso muito mais do que "para os devidos fins".

Como descrever a demanda?

Descreva o que motivou a busca pelo serviço, quem forneceu as informações e o que levou ao pedido do documento (art. 11, §3º). É "requisito indispensável" e deve apresentar o raciocínio que justifica os procedimentos (art. 11, §3º, I).

O que colocar no procedimento?

Apresente o raciocínio técnico-científico que justifica o processo de trabalho, os recursos usados e o referencial teórico-metodológico que sustentou suas análises (art. 11, §4º). Cite as pessoas ouvidas, as informações objetivas, o número de encontros e a duração do processo (art. 11, §4º, I). Os procedimentos devem ser pertinentes à complexidade do que foi pedido (art. 11, §4º, II).

Como escrever a análise sem transcrever sessões?

Exponha de forma descritiva, narrativa e analítica a evolução do trabalho, sem descrição literal das sessões, salvo justificativa técnica (art. 11, §5º). A análise precisa de fundamentação teórica e técnica (inciso I), relata só o necessário para responder à demanda (inciso II) e usa linguagem objetiva (inciso IV).

O inciso III é o que mais pesa: é vedado registrar afirmações sem identificar a fonte ou sem sustentação em fatos ou teorias. "A mãe relata que a criança chora ao ser deixada na escola" identifica a fonte. "A criança tem medo de abandono", solto no texto, não. Escreva na terceira pessoa, de forma impessoal (art. 6º, §4º).

O que deve constar na conclusão?

Conclua a partir do que foi relatado na análise, considerando a natureza dinâmica e não cristalizada do objeto de estudo (art. 11, §6º). Pode constar encaminhamento, orientação e sugestão de continuidade (inciso I). A comentada recomenda retomar a finalidade, registrar a entrevista devolutiva e deixar clara a validade temporal das informações.

Como encerrar e entregar o relatório psicológico?

Encerre com local, data de emissão e carimbo com seu nome completo ou nome social e inscrição no CRP. Numere todas as laudas, rubrique da primeira à penúltima e assine a última página (art. 11, §6º, II). Indique a validade do conteúdo no último parágrafo (art. 17) e entregue o documento em entrevista devolutiva, com protocolo de entrega assinado (arts. 16 e 18).

Se a devolutiva não puder acontecer, explicite as razões (art. 18, §1º). O passo a passo está em devolutiva e protocolo de entrega. É facultativo incluir uma ressalva final: uso restrito à finalidade, caráter sigiloso, documento extrajudicial e isenção pelo uso dado após a devolutiva (art. 11, §6º, III).

Não existe prazo de validade único. Sem norma específica na sua área, você o define pelos objetivos, procedimentos e conclusões (art. 17, §2º). Veja prazo de validade do documento psicológico.

Como fica um relatório psicológico pronto?

Um relatório pronto traz os cinco itens em sequência lógica e fecha com validade, local, data, carimbo e assinatura. O exemplo abaixo é curto de propósito, para mostrar onde cada exigência aparece. Num caso real, a análise costuma ser o trecho mais longo, porque é nela que você sustenta as conclusões.

Exemplo ilustrativo, com dados fictícios. Adapte ao seu caso.

RELATÓRIO PSICOLÓGICO

Identificação. Pessoa atendida: Joana Fictícia. Solicitante: a própria pessoa atendida. Finalidade: subsidiar pedido de ampliação do número de sessões junto ao plano de saúde. Autora: Maria Exemplo, psicóloga, CRP 00/000000.

Descrição da demanda. Segundo relato da própria Joana Fictícia, a procura pelo atendimento, em março de 2026, decorreu de dificuldades de sono associadas a mudanças no trabalho. O pedido deste relatório partiu dela.

Procedimento. Foram realizadas 16 sessões individuais semanais de 50 minutos, entre março e julho de 2026, com base no [referencial teórico adotado]. Foi ouvida apenas a pessoa atendida.

Análise. Conforme os registros das sessões, a pessoa atendida passou a identificar as situações que antecedem os episódios relatados. Os objetivos iniciais foram atingidos em parte, o que, à luz do referencial adotado, indica a necessidade de continuidade.

Conclusão. Recomenda-se a continuidade do acompanhamento psicológico semanal. Este relatório será entregue em entrevista devolutiva e não deve ser usado para fins diferentes do indicado na identificação.

As informações deste relatório têm validade de seis meses a partir da emissão, prazo definido pela autora considerando a natureza dinâmica do processo.

Cidade Fictícia, 7 de outubro de 2026. Maria Exemplo, psicóloga, CRP 00/000000 (carimbo e assinatura)

Para começar com os cinco itens já separados, use o modelo de relatório do ConferePsi. Ele organiza a estrutura; o conteúdo técnico continua com você.

Quando procurar o seu CRP?

Procure a orientação do seu Conselho Regional quando o texto da resolução não resolve a dúvida. Casos omissos e dúvidas sobre a 06/2019 são resolvidos pela orientação e jurisprudência dos CRPs e, no que couber, pelo CFP (art. 3º, §1º). No relatório psicológico, as consultas mais comuns envolvem sigilo e pedidos de terceiros.

  • Um juiz, advogado ou delegado pede relatório sobre alguém em psicoterapia e você não sabe o que pode informar (veja documento pedido pela Justiça).
  • A escola ou a empresa quer mais informação do que a demanda justifica.
  • Você não sabe se o pedido cabe num relatório ou exige um processo de avaliação psicológica.

Perguntas frequentes

Relatório psicológico pode ter diagnóstico?

Não como finalidade. O art. 11 diz expressamente que o relatório não tem como finalidade produzir diagnóstico psicológico. Diagnóstico, prognóstico e hipótese diagnóstica aparecem na resolução como conteúdo do laudo, que resulta de um processo de avaliação psicológica (art. 13).

O relatório pode ser escrito em texto corrido?

Pode. O art. 11, §1º admite itens ou texto corrido. Mesmo assim, os cinco conteúdos precisam estar presentes e localizáveis.

Preciso colocar referências bibliográficas no relatório?

Não há item obrigatório de referências, ao contrário do laudo e do parecer. Se você citar material teórico, referencie, de preferência em nota de rodapé (art. 5º, §7º). O procedimento precisa especificar o referencial teórico-metodológico (art. 11, §4º).

Posso transcrever falas da pessoa atendida?

Só quando a transcrição se justifica tecnicamente (art. 6º, §5º; art. 11, III). Segundo a versão comentada, descrições literais servem para sustentar a argumentação, não para atender a pedidos que prejudiquem o sigilo.

A devolutiva é obrigatória para entregar relatório?

Sim. Para entregar relatório e laudo, a psicóloga ou o psicólogo deve fazer ao menos uma entrevista devolutiva (art. 18). Se ela não acontecer, explicite as razões (art. 18, §1º). A comentada sugere registrar no prontuário a tentativa de contato quando a pessoa deixa de comparecer.

Fontes oficiais